sabine scho
não acredite, por favor,
no que se diz, no que se vê
as privações subexpostas
a mancha clareada, e não peça
por correções, a pintura
tem sim seu valor, pode-se clonar
mini-guarda-chuvas também
e alegar que são roubados
até que se torne visível
chuva continua chuva, »corre
rola, a fachada vazia«
será que jamais interessou a alguém
o que se destila atrás e como?
(trad. ricardo domeneck)
chartreuse
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eduardo siqueira
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poema em branco
ronaldo bressane
Nem sombra de escrita
Meus dedos não me obedecem mais
Nem minha cabeça
Nem as nuvens
Nada nunca me obedeceu
Matar o ressentimento, ser positivo
Esquecer as conspirações dos espíritos e das calçadas
Esquecer o fluxo da notícia
O rio de pensamentos alheios que invade minhas margens
Esquecer os próprios mitos
Os cigarros que nos abrem caminhos
Nada parece muito real aqui dessa ponta do mundo escuro
Como se tomasse súbito contato com a verdade que sim acontece comigo
Não não era um fantasma amigo
Este que habita este corpo
Se é que este havia
Antes da escrita
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eduardo siqueira
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punção
juliana krapp
campanários. isso sim é uma casa
não aquionde os objetos sequer conspiram
onde a pele não se reconhece pele
e não se engendra cápsula de outra cápsula
posse de um único mistério
com seu agravo inabalável. uma casa
requer formas como dormideiras
que se recolham à carícia quando todas as carícias
são íntimas é tão surrado reconhecer
nas paredes que a única propriedade possível
é a fuga e mais ainda o sono profundo e
que sobretudo os mais elaborados sinais de chuva
não passam de sentinelas
resfolegando seu passo de partida
esta casa
não é minha: não se alcança daqui o brejo
afetuoso ao fundo de todas as coisas
não se vê o fosso
translúcido extorquindo das frestas
as esquadrias
tampouco há cantigas
emudecedoras
quando as horas se constrangem ao toque
ou ao contato do antebraço
com o repuxo invisível do acrílico
nesta casa
(assim como em todas as outras)
só resiste a ânsia de um veneno
afogado
em seu desleixo por lãs e puxadores
um veneno tão debilitado e circunstante
inabitável
quanto a certeza de que há ainda
no mundo tanto tremor
por tão pouca terra
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.
ricardo silveira
você sabe,
quanto mais grave
mais baixo
e um contra-baixo alto
é problema grave
pra um homem
da guitarra como eu
com o ego
e o nível de álcool
há seis semanas
no topo da Billboard
mas, pensando bem,
olha pra esse breu
e essa sauna
de alcatrão e nicotina
essa cerveja quente
e essa gente junk
que dança ao som do iggy
e faz o punk ao som do pop
toca qualquer nota
que ninguém nota
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gabriela
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steel
juliana krapp
pústulas sobreventos arcabouços
______________e mirra
é esse o ponto em que a tarde desentranha
todos os nervos purulentos
e urgentes - ouro de tolo aos poucos arrebentando
______________do couro cru a anunciação
______________mais bruta
quando a sombra do dia é pelúcia
______________vermelha
e em vários níveis de fuligem irrompe a perícia
da memória - os seus olhos vidrados
naquela hora a mesma hora que se repete
do córtex ao fogo
indefinidamente
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cartacanto
josé lino grünewald
desfinquei meu destino sob as pétalas
ricas rosas de rilke e de ronsard
depois caí do sonho e nevermore
meu corvo privativo aponta zero
do zero ao zênite, do zéfiro ao z
o z do fim de um alfabeto em onde
brincamos borboletras, despousamos
frases feitas. os fios de falares
numa dança entre língua e linguagem. só?
lacuna, ausência, o nada, o vazio, o vago
vaso onde mergulhamos as palavras.
as mirimagens de esperânsias, pétalas
pétalas novamente apagam tédios.
voltas o sonho azul daquelas rosas –
pétalas (rilke), e escrever (o quê?)
e após tombar, fenecer, ir, cair,
adeus: sem saber nada sobre a morte.
e sobre a vida, o renascer, processo?
nada de nada de nenhuma coisa.
só restam ócios de ossos nesse ocaso.
'a bracelet of bright hair about the bone'
(donne) acaso, migalhas
de brilhos. e lazeres de ofício ou
sobras de esguichos aromáticos.
as sombras nos saúdam multinegras
há um corredor, córrego de dúvidas
vivermorrer é estar entre (o processo)
e reencarnamo-nos em flores.
pássaros rápidos, ondas ao léu, gases,
poetas. volta a luta vã com as palavras.
voltam as musas, lebre, mulher, pedra.
volta o silêncio, o duro severo rigor
'in my craft or sullen art' (thomas),
e aqui me resto parlapatando
verbos ao vento, várias vagas vozes
em que me desespelho, versejando
em busca da primeira e única, única
autopalavra de ordem: sossego.
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cogito
torquato neto
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim
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treze pares de meias (primeira parte)
paulo scott
doze pescadores em seus trajes de amianto
escoltam o jovem e o que se finge de mulher
as paredes estilhaçam maresia e rebentação do mar
enganam o raso do calabouço
pari o último pano úmido, a última fatia do espelho
o barulho do fingimento é quase o das chamas
a alvenaria se ata aos ferros, o mofo cospe estrelas
meu hálito fede a churrasco
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refrigerador
ricardo domeneck
o que recende e
ascende deste lençol
encharcado do suor
de um único
dono não mais
condensa-se ou
mistura-se
à extensão de
outro corpo
e deixa-me a tarefa
de carregar e conter
meus orgãos internos
com minha própria
pele tão-somente
passeio no parque caminho
pelo parque convencendo-me
de estar engajado apenas
em uma atividade bonitinha
seja
outono ou inverno visto
a expressão "tenho
um amante mas
ele está longe" e todos
percebem o
perigo dá-se
vejo um casal
e logo "two lovers entwined
pass me by & heaven knows
I'm miserable now" surgem
dominam-me eu os afasto
olhando o chão
sou uma folha amarela o
contato com o chão
me basta sou uma folha
amarela o contato com
o chão me basta
fico na chuva quero
induzir-me à febre à gripe
à cama necessária
imitá-lo mesmo na doença
lembrar-me dele espirrando o
corpo todo que se
ama tanto tremendo
tremendo
não colaboro com
a insônia alheia faço
sexo com outro e
outro e o corpo estende
faixas obrigado
obrigado
pela graça
alcançada
a cama enfim ocupada
viro-me finjo que
durmo lembrando-me
que é apenas uma
hipótese que o sol
amanhã levante-se
o toldo estenda-se
que o balão suba
meu focinho colado
ao chão, cão à caça;
e a insaciabilidade
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palitos
ana guadalupe
prometemos
telefonemas
numa dessas
noites de carona até
as fronteiras das menores
cidades mais frias
prometemos
machucar
um bocado
no escuro das calçadas
como os palitos
de dente e os pregos
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gabriela
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.
angélica freitas
um fusca
cor de bala soft
morreu
naquele morrinho
ali, ó,
vermelho
cor de bala soft
como a cara dos caras
que empurraram
e, ó,
pó pó pó
pegou
no longe vi ainda
redondo e soltando fumaça
pra dentro da boca sem dentes
do túnel
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the red wheelbarrow
william carlos williams
so much depends
upon
a red wheel
barrow
glazed with rain
water
beside the white
chickens
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eduardo siqueira
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a red wheelbarrow
jack spicer
Rest and look at this goddamned wheelbarrow. Whatever
It is. Dogs and crocodiles, sunlamps. Not
For their significance.
For their significant. For being human
The signs escape you. You, who aren’t very bright
Are a signal for them. Not,
I mean, the dogs and crocodiles, sunlamps. Not
Their significance.
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